“A água na estrada morta
E a força que nunca seca…” – A Força Que Nunca Seca

Tudo o que é sagrado se transforma, mas mantém para sempre a origem de sua grandeza. Quando saiu de casa, ainda menina, Maria Bethânia talvez não imaginasse que se transformaria numa voz que o Brasil jamais ousaria ignorar desde a primeira vez em que se projetou. Hoje, seis décadas após o início da carreira, ela chega aos 80 anos num estado de liberdade que poucos ousam ter na vida.
Seus mais de 50 álbuns, ao vivo ou de estúdio, entre coletâneas e trabalhos conceituais, têm todos uma característica em comum: a integridade. Se há um desafio já vencido é o daquele que aposta que, ao escutar Bethânia, ouvirá a verdade atravessar seus ouvidos. “Eu sou a onça, já viu alguém obrigar onça a alguma coisa?”, disse ela certa vez ao responder a uma repórter.
Em 1983, após anos de auge com seus discos cheios de sucessos, sempre acompanhados de orquestras e arranjos sedutores, Maria Bethânia poderia simplesmente repetir a fórmula e guardar mais uma placa com a marca de 500 mil ou 1 milhão de discos vendidos. Que cantora não faria isso?
É que, convenhamos, Maria Bethânia não é só uma cantora. Quem a viu ao vivo sabe muito bem que o cantar é sua arte sacra, mas que ela também guarda muitas outras coisas em seu peito protegido pelo misterioso patuá que carrega, ou em seus cabelos comandados pelos ventos de Iansã.
Por isso mesmo, ao planejar o disco daquele ano, Bethânia decidiu nadar contra a maré. Incluiu arranjos quase inteiramente acústicos e um repertório pouco convencional, mas primoroso. O resultado, claro, foi o disco não ser bem-sucedido em vendas.
Mas o tempo, esse a quem se repete tantas vezes o nome para que possamos perceber sua grandeza e a nossa pequenez, acabou revelando que a artista estava mais do que certa. Claro que seus discos campeões de venda continuam muito lembrados e celebrados pelo Brasil.
Mas é na coragem de Ciclo que o público assimilou uma cantora que nunca aceitou se vender, independentemente do preço ou do comprador. E não estar sujeito à venda, no mundo em que estamos, é tomar uma posição muito maior do que se pode declarar em palavras num discurso.
Afinal, a onça nunca foi, por assim dizer, panfletária. No entanto, sempre foi muito clara a exposição das ideias de Maria Bethânia. “Misteriosa? E eu tão nua no palco”, disse ela há pouco tempo, em entrevista a Carlos Jardim.
Para os atentos, e fortes, não há nada mais explícito do que as ideias de Bethânia. Ora, não nos esqueçamos de que, quando o Congresso lançou a chamada PEC da Bandidagem, o povo brasileiro se ergueu e foi às ruas lutar.
Houve aqueles que sentiram falta da cantora em comícios e trios elétricos. No entanto, naquele domingo em que os brasileiros foram exercer sua pressão pública, Maria Bethânia, em plena turnê de 60 anos de carreira, incluiu, apenas no show daquele dia, a música Fé, versão de IZA.
O refrão não poderia ser mais claro: fé para quem não perde o foco, fé para enfrentar esses “filha” da puta. Bethânia não voltaria a cantar a canção durante o restante da turnê.
Fato é que, quando a estrada Brasil aparece morta, é a força marítima de sua voz que vem nos salvar e saciar. Seus 80 anos chegam tão fortes quanto a grandeza do mar que ela nos canta durante toda a vida.
Parece mesmo que cada um dos elementos da natureza tem uma nítida ligação com sua pessoa. O mar, as profundezas de sua arte, que tem cor de água, transparente, verdadeira e essencial à vida.
O vento, por onde voam as abelhas, o mesmo que eleva seus cabelos quase até encostarem no céu e que assovia a música em seus ouvidos. A terra, onde seus pés nus, em realidade, não pisam, mas criam raízes.
Ela agora se torna árvore longeva e frondosa, alimentando-se de luz. O fogo, é claro, habita todos os confins de sua alma, passa fumegando por suas veias até manifestar-se em seus vibratos, que nos queimam e, por isso mesmo, nos tornam vivos.
A força de vida manifesta-se em cada um de seus gestos: a caminhada, o ajeitar dos cabelos, o balançar no fio do chicote-microfone, o riso sensual, a seriedade bruta, o perfeccionismo radical e a mão erguida ao fim de tudo, em contato direto com o céu.
A contagem que agora sai da casa das sete moradas e passa para oito, apesar de mudar muito, não muda tudo. Aos 80 anos, mantém teso o arco da promessa e, mesmo estando nos melhores palcos que uma cantora pode desejar, não é nada além da velha índia que sempre sonhou ser.
É a mesma interiorana que saiu de Santo Amaro da Purificação para fazer seu nome soar vitorioso pelo mundo e através da História. Isso é saber ter o álibi de uma alteza, possuir todos os talismãs do mundo apesar dos ciclos que vão e vêm.
Vale lembrar que Maria Bethânia sempre disse que não é rainha: “a verdadeira rainha está no céu”. Respeitamos a integridade e a fé de Bethânia, mas sabemos que, se há algo de realeza na Terra, de manifestação realmente divina, esse algo está presente na voz de uma das poucas pessoas no Brasil que podem figurar plenamente na categoria de intérprete. Está na voz da Abelha Rainha.
Porque a força, quando vem da voz de uma pessoa vitoriosa, não importa o passar dos anos, nunca seca. Ao contrário, multiplica-se, faz rios dentro do mar.
Maria Bethânia, que deu voz a Eu e Água e outras tantas canções que deságuam em nossos corações, é uma sereia para além do mito: a tua presença canta para revelar.
Gustavo Henrique Coelho | Portal Uai Maria Bethânia