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A “Vera Cruz” encantada da Abelha Rainha — por João Victor Cunha.

Em setembro de 2025 a jornalista Flávia Oliveira assistiu a estréia da turnê comemorativa de 60 anos de carreira da cantora Maria Bethânia. Em um post no seu Instagram classificou o show como um ebó coletivo. O texto começa por sua definição da palavra “em religiões de matriz africana, ebó é ritual de limpeza; é ato que livra de vibrações negativas, atrai saúde, energiza o espírito.” (OLIVEIRA, 2025).

Esse texto não saiu da minha cabeça na época (pois eu também estava lá) e me voltou imediatamente quando convidado para escrever um texto sobre a nova canção da Abelha Rainha, Vera Cruz, a qual pude ouvir ao vivo novamente no encerramento da turnê, no último dia 18. Apresentada na estréia da turnê, registrada em estúdio em dezembro e lançada às vésperas do show de encerramento da turnê, este samba de roda de Xande de Pilares e Paulo César Feital foi feito especialmente para a santo-amarense.

Esse single me parece singularizar (com o perdão do trocadilho ruim) o espetáculo, pois me parece que ele em si mesmo opera esse expurgo coletivo de energias negativas (o ebó referido por Flávia) e uma consequente conclamação de uma celebração encantada, predominante e essencialmente, brasileira. Sendo um samba de roda, ritmo do Recôncavo Baiano e muito presente nos terreiros de Candomblé, especialmente os de raiz angola, a forma da canção já se mostra conteúdo.  

Lê, lê, lê, lê

Batizou-me terra Vera Cruz
Águas de lemanjá
De Tupã irmã sou de Jesus
Filha de Oxalá

O meu próprio povo me conduz
Tem que respeitar
Chefe de outra pátria não me induz
Quem vai me guiar

Guarde seu preconceito
Sou livre pra sambar
Carrego nos meus ombros
Os quilombos de além-mar

Sou feita de preceitos
Posso te apavorar
Navego em minhas veias as mandingas do Pará
Sou filha da Bahia
Catulei no Gantois

Lê, lê, lê, lê

Deus me fez do plasma santa luz
Sou de Obatalá
Sou Brasil, sou pátria dos exus
Babalorixá

Deus me fez do plasma santa luz
Sou de Obatalá
Sou Brasil, sou pátria dos exus
Babalorixá

Eu trago nos meus seios
O leite de Iorubá
Mas quando fico prenha
Gero só Tupinambá

Nação hermafrodita
Sou homem, sou mulher
Se Vera, sou bendita
Brasil, Chico Xavier

Sou calma, sou bendita
Clementina, sou Quelé
Mas não me deixa aflita
Sou Pilintra, viro Zé

O uso do adjetivo encantado aqui é escolhido em conjunção ao conceito do historiador e mestre Luiz Antônio Simas, que vai contra ao racionalismo tecnocrata imposto pelas lógicas coloniais e entende o encantamento como “ato de desobediência, transgressão, invenção e reconexão: afirmação da vida, em suma” (RUFINO, SIMAS, p.6).

Ele vai além e classifica o encantamento como “capacidade de transitar pelas inúmeras voltas do tempo, invocar espiritualidades de batalha e de cura” (…) (ibid, p.7). Para Simas, esse encantamento está totalmente ligados as cosmovisões de religiões de matrizes afro-brasileiras e de povos originários desta nossa terra Brasil, que foi primeiramente nomeada pelos invasores portugueses de Ilha de Vera Cruz.

O samba homônimo, misto de ebó e encantamento festivo, inicia conclamando o corpo a dança a partir dos primeiros acordes de pandeiro acompanhados do “Lê lê lê lê”, que já coloca o ouvinte em estado de movimento, convoca o ouvinte ao canto coletivo. O acompanhamento do coro junto ao canto do enunciador é típico do samba de roda e já aparece aqui. Bethânia, acompanhada pelo coro, entoa com sua firme voz de contralto os primeiros versos “Batizou-me terra Vera Cruz/De Tupã irmã sou de Jesus/Filha de Oxalá, o que já vocoperformatiza seu ethos sincrético, de encantamento, feitiço.

O pronome “me” coloca o sujeito na primeira pessoa do singular, o que nos leva a pensar que o eu cancional –e consequentemente a intérprete– falam em nome da própria pátria. Significante das religiões dos povos originários, Tupã, deus tupi convertido no Deus maiúsculo cristão pelos jesuítas e aproximado a Jesus no verso, é um aceno aos mitos fundantes da nossa pátria. Oxalá, a entidade iorubá também se apresenta nesse caldo religioso que desde o início nos formou a despeito de toda perseguição promovida nas América Latina pelos chefes de outras pátrias a serem mencionados no versos subsequentes. 

A segunda estrofe da canção “O meu próprio povo me conduz / Tem que respeitar / Chefe de outra pátria não me induz / Quem vai me guiar” levou os presentes no Vivo Rio a exaltação, funcionando como um aceno claro a reiteração da soberania nacional necessária frente a tentativa de chantagem tarifária exercida pelo governo norte americano sobre o judiciário brasileiro (MOURA, 2025). Bethânia, que sempre primou pela sua liberdade (AZULAY, 1978), agora corporificada em nação Brasil e cantando em primeira pessoa, rechaça a interferência estrangeira e ressalta o poder de condução exercido pelo seu próprio povo, entidade pluriétnica tão presente em seu cancioneiro e explorados em suas diversas idiossincrasias, procedimento melhor condensado no espetáculo Brasileirinho (2004).

E o ebó combativo da intérprete segue na estrofe seguinte com os versos “Guarde seu preconceito/Sou livre pra sambar/Carrego nos meus ombros os quilombos de além-mar”. Aqui, em andamento acelerado, o samba de Xande e Paulo César rechaça todo tipo de preconceito, inclusive o sofrido pelo próprio gênero em seus primórdios, sendo criminalizado e perseguido na virada dos séculos 19 e 20 (BBC NEWS BRASIL, 2020). Por muitos anos no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro do Vivo Rio, não se foi livre para sambar, muito pelo contrário, se sambou à margem, a despeito de. E essa foi uma forma de carregar nos ombros os quilombos de além-mar.

Aqui Bethânia parece falar do Brasil que ela corporifica e de seu próprio corpo físico, entidade livre que fez questão de apresentar o samba de roda e a cultura de terreiro para o grande público por meio de discos de estúdio, como o Maria Bethânia (1969) onde podemos encontrar o Ponto do Guerreiro Branco como um claro aceno a Umbanda. Nas apresentações ao vivo de 1970, posteriormente registradas em disco, encontramos um pout-pourri de sambas de roda e um ponto em celebração ao orixá Oxóssi.

Sendo assim, em Vera Cruz o  verso “Ser feita de preceitos” dá continuidade ao trabalho de representação do Brasil pela ótica de Bethânia, país inundado e imiscuído das cosmovisões negras e indígenas. O verso “Posso te apavorar” soa como uma provocação ao racismo religioso sofrido por essas religiões, associadas comumente à bruxaria e ao Diabo cristão. 

Em seguida, O sujeito cancional afirma ser filha da Bahia e ter ‘catulado’ no Gantois. A confusão intencional operada pelo eu da canção continua a instigar-nos a associá-lo tanto ao Brasil quanto a persona Bethânia, visto que as religiões afro-brasileiras deram frutos na Bahia, a colonização começou pelo estado e a própria intérprete é um desses frutos. Impossível não mencionar que ela é da mesma cidade da matriarca do samba, Tia Ciata, referenciada na canção Onde O Rio é Mais Baiano (Caetano Veloso) por ter trazido o samba pro Rio de Janeiro. Sendo assim, Bethânia cantando esse samba opera num continuum cultural da própria nação. Além disso, “Catulei no Gantois” aqui se refere a feitura de Bethânia na religião Candomblé. (CAMINHOS DO AXÉ, 2013)

Conversando com minha amiga Márcia Fráguas, historiadora pela USP e doutoranda em Literatura Comparada pela UERJ, pudemos perceber que na canção que é aqui analisada a intérprete se coloca como um corpo prenhe de atravessamentos: além de ser o corpo de uma brasileira do Recôncavo também configura-se como uma encruzilhada em si mesmo. No corpo-cruzo se vocoperformatizam todos esses entroncamentos religiosos que vieram dar nesta terra de Vera Cruz a partir da diáspora africana, onde se espalharam o Candomblé, a Umbanda, a encantaria, as rezadeiras e etc.

Ao longo da canção, que apesar de curta enumera vários significantes constituintes do nosso povo, o eu cancional (Brasil) se afirma como pátria dos exus, afastando-se da pátria a(r)mada dos últimos anos e figurativizando-se como entidade fecunda, visto que traz nos seios o leite de Iorubá. Entretanto, a entidade brasileira é retratada como diversa a todo momento: fica prenha e gera tupinambás, ou seja, herdeiros mestiços, Macunaímicos por natureza. Além disso, ela é atavicamente hermafrodita (aceno importante em tempos de repressão aos debates de gênero). Elencando figuras emblemáticas de nossa cultura como Clementina de Jesus e Chico Xavier, a voz da experiência negra tardiamente reconhecida e o santificado mineiro espírita, a canção mantém a saudação patriota, essa sim verdadeira, ordeira e agregadora. 

Entretanto, o aviso é dado nos últimos versos “Mas não me deixe aflita/Sou pilintra viro Zé”, onde Bethânia estende a vogal E de modo a enunciar o grito combativo de uma pátria racializada que não vai se converter ao obscurantismo opressivo fundamentalista. Segundo Márcia Fráguas, no ritual do ebó no Candomblé se canta para a invocação da purificação, ou seja, parece que Bethânia aqui coloca seu canto no mesmo sentido, buscando a purificação do terreiro–palco para que se chegue a celebração festiva, ao encanto da festa. 

No fim da canção, Bethânia canta o verso “Isso é Brasil iôiô”, rasura a canção citando o “Pega, mata e come!” do sucesso Carcará (João do Vale/José Cândido) que a projetou ao estrelato nacional em 1965. Com essa costura ela enriquece o número atando as duas pontas do tempo: seu início de carreira e a consagração da sólida e longa carreira, unindo a primeira canção registrada à última lançada. Dessa maneira, ela celebra o encantamento do próprio tempo, entidade para as religiões indígenas e afro-brasileiras, marcado por continuidades e confluências, rico e complexo. O registro da canção Vera Cruz pela intérprete adiciona mais uma pérola ao seu projeto de cantar o Brasil, congregando saberes e ressaltando sua visão religiosa plural e quase filosófica (BATISTA, 2012). Segundo o pesquisador de poesia e canção professor Dr Leonardo Davino (UERJ):

A vocoperformance de Bethânia constrói uma ponte afetiva entre passado e presente, aqui e agora, Greco-Iorubá, Mamá África e Caraíba, Aristóteles e terreiro de Oxum, baseada no culto, cultivo e colheita de uma intimidade tropical brasileira. Ao justapor extratos culturais, o canto de Bethânia gera um eterno retorno do gesto de redescobrimento do Brasil. Bethânia é brasileira. que nem eu, nós. (OLIVEIRA, 2013).

Nesse sentido, o uso da primeira pessoa nos versos da canção, empoderado pela potência da voz e do corpo movente da intérprete são mister em aproximar a ideia de Brasil a persona Maria Bethânia, visto que sua obra perpassou a complexidade da experiência de ser brasileiro, o tupi or not tupi de Oswald de Andrade. Para finalizar, é possível retomar outro texto de Simas, que configura o Brasil (colonizado, nomeado pelo colonizador) como  um empreendimento de ódio e o opõe a ideia contrária de brasilidade como “ação e reação vital, inovadora, transgressora, contra a mortandade (…). Muitas vezes, a Brasilidade se manifesta nas diversas formas de construção de vida nas frestas do muro institucional erguido por aqui, produzindo incessantemente cultura.” (SIMAS, 2022)

Sendo assim, a Vera Cruz de Maria Bethânia elabora essa brasilidade de forma mesclada, operando nas frestas desse muro institucional que é o Brazil e se consagrando como instrumento do seu ebó purificador o qual expurga as forças do mal e abre alas para um encantamento pluriétnico, sincrético, mestiço e rico do Brasil. Com S, sempre. 

OBS: Agradeço a colaboração carinhosa e leitura atenta dos meus amigos, pesquisadores e mestres de barco: Leonardo Davino de Oliveira e Márcia Cristina Fráguas. E a revisão do meu namorado Gabriel, luz da minha vida. Por sempre e tanto. 

Nota= A capa do single nas plataformas digitais, criada por Omar Salomão, reafirma o procedimento estético Bethaniano de atar as duas pontas do tempo nessa turnê. Nela, expõe-se a obra “A Descida do Corcovado ou Ogum”, pintura apresentada por Flávio Império em 1972. Essa escolha é um aceno ao mítico cenógrafo e artista plástico paulistano responsável pela cenografia de espetáculos memoráveis de Bethânia como “Rosa dos Ventos”, “Doces Bárbaros” e “Pássaro da Manhã”. Ele retorna ao repertório gráfico da intérprete configurando outro aceno do espetáculo 60 anos a momentos, cenas, figuras e personas que perpassaram a longeva vida/carreira da santo-amarense.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANDRADE, Rafael Batista. Semiótica, éthos e gêneros de discurso nas canções‑poemas de Maria Bethânia (dissertação de mestrado). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2013. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/aafe602b‑d773‑48a8‑95c8‑6e538be6fc4b. Acesso em: 31 de jan. 2026
AZULAY, Jom Tob (dir.). Os Doces Bárbaros [documentário]. Brasil, 1977.
BBC NEWS BRASIL. Quando tocar samba dava cadeia no Brasil. BBC News Brasil, 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51580785. Acesso em: 30 de jan. 2026.
BETHÂNIA, Maria. Brasileirinho (CD). Rio de Janeiro: Quitanda/Biscoito Fino, 2003.
BETHÂNIA, Maria. Maria Bethânia (LP). Rio de Janeiro: Odeon, 1969.
BETHÂNIA, Maria. Maria Bethânia Ao Vivo (LP). Rio de Janeiro: EMI/Odeon, 1970.
BETHÂNIA, Maria. Vera Cruz. Xande de Pilares; Paulo César Feital. Single digital, gravadora Biscoito Fino, 16 jan. 2026.
CAMINHOS DO AXÉ. Catulagem [online]. Enciclopédia de Matriz Africana. Caminhos do Axé, [s.d.]. Disponível em: https://caminhosdoaxe.com.br/encyclopedia/catulagem/. Acesso em: 30 de jan. 2026.
OLIVEIRA, Flávia. (@flaviaol). Maria Bethânia, 60 ANOS DE CARREIRA. [post no instagram]. Instagram. 08 de set. 2025. Acesso em: 30 de jan. 2026.
MOURA, Manuela de. Trump cita Bolsonaro em ordem executiva que definiu tarifaço ao Brasil. Metrópoles, 30 jul. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/mundo/trump-cita-bolsonaro-ordem-executiva-definiu-tarifaco-brasil. Acesso em: 30 de jan. 2026.
OLIVEIRA, Flávia. (@flaviaol). Maria Bethânia, 60 ANOS DE CARREIRA. [post no instagram]. Instagram. 08 de set. 2025. Acesso em: 30 de jan. 2026.
OLIVEIRA, Leonardo. Relicário em Estado de Bethânia [online]. 25 de jun. 2013. Disponívelem:https://blissnaotembis.blogspot.com/2013/06/relicario-em-estado-de-bethania-por.html?m=1. Acesso em: 30 de jan. 2026..
SIMAS, Luiz Antonio. O mergulho nas brasilidades [online]. Luiz Antonio Simas: blog, 6 nov. 2022. Disponível em: https://luizantoniosimas.com.br/blog/o-mergulho-nas-brasilidades/. Acesso em: 30 de jan. 2026.
SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. Encantamento: sobre política de vida. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2020.
FERREIRA, Mauro. Maria Bethânia se reconecta com a arte do cenógrafo Flávio Império na capa do single em que canta o samba Vera Cruz. G1, 9 jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/01/09/maria-bethania-se-reconecta-com-a-arte-do-cenografo-flavio-imperio-na-capa-do-single-em-que-canta-o-samba-vera-cruz.ghtml – Acesso em: 3 de fev. 2026

ESCRITO POR: João Victor Cunha Geraldo
Bacharel em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pós graduando do programa de Especialização em Literatura Brasileira pela mesma universidade.