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ANÁLISE: “Em alguns momentos, era possível perceber que ela também estava ali para assistir Bethânia cantar…” – Por Lua Lima

Foto: AgNews

2 milhões de pessoas. Essa foi a estimativa da Prefeitura do Rio de Janeiro para mais um megashow gratuito na praia de Copacabana. Dois milhões de pessoas e um show que prometia ser único — e, ao mesmo tempo, próximo de cada brasileiro. Foi essa a ideia que Shakira transmitiu desde a divulgação de que seria a atração do evento “Todo Mundo no Rio 2026”.

Sua proximidade com o Brasil e com a nossa cultura não é de hoje. Ela carrega uma reverência pela nossa arte construída ao longo de muitos anos, de muitas histórias — de um acolhimento do público à sua arte e, claro, do acolhimento dela à nossa história. Algo raro de vir de um artista internacional, mas, quando acontece, temos a certeza de que a nossa arte ultrapassa fronteiras e é vista e lembrada por quem passa por aqui.

Acho que essa é a principal ideia a ser lembrada do show de Shakira: ela faz questão de reforçar a importância dos latinos. Que, por muitas vezes, são deixados de lado, menosprezados, colocados à parte de uma sociedade que se coloca acima — sobretudo por americanos e europeus —, a ponto de, por vezes, o próprio povo se esquecer de sua magnitude.

E Shakira fez questão de mostrar que isso nunca foi esquecido por ela. Falou também das mães solteiras, que cuidam sozinhas dos lares, das carreiras e dos filhos. Colocou-se nessa lista. E lembrou de milhões de mães brasileiras que também passam por isso. Dedicou o show a elas e a todas as mulheres que correm na luta, que choram, que desabam e encontram forças para se levantar.

Apesar de duas horas de atraso (segundo apurado, Shakira ficou abalada com a notícia que recebeu antes de subir ao palco, sobre o estado de saúde de seu pai), o show se inicia com ela vestida de Brasil da cabeça aos pés. Para alguns, isso pode ser visto como algo inocente ou até como estratégia para agradar o público, mas foi muito bem pensado. E é um detalhe a que vale a pena prestar atenção: Shakira aprendeu português muito antes de aprender inglês — e isso diz muito sobre o que o nosso país representa para ela.

Ao longo do show, entre muitas trocas de figurino — sempre com destaque para as cores da nossa bandeira —, em um gesto quase nacionalista, como quem abraça a identidade do país, Shakira surpreende ao abrir espaço para artistas brasileiros dividirem o palco com ela. Quando chama Anitta e Ivete, mostra ao público o poder da conexão. Era nítida a sintonia, a intimidade, o carinho construído ao longo dos anos — uma história compartilhada com nossas artistas.

E é nesse lugar de valorização que Shakira sempre fez questão de nos colocar. Existe, por parte de alguns artistas estrangeiros, uma compreensão real da importância da nossa história na música e de como certos nomes a moldaram com as próprias mãos.

É nesse ponto que entram Maria Bethânia e Caetano Veloso. Como brasileiros (infelizmente, não todos), temos noção da grandeza dos irmãos de Santo Amaro da Purificação. Sabemos de sua trajetória e de sua importância para a música brasileira e para o que se compreende como Brasil até hoje. Apesar da idade, continuam relevantes, ativos e atentos ao mundo e ao país atual.

Antes de Caetano subir ao palco, Shakira faz uma introdução simples, mas bonita e sincera — capaz de traduzir quase tudo o que ele representa. Ela se mostra comovida e feliz, como qualquer fã, e não como a artista internacional que é. É nesse momento que percebemos que, apesar de vivermos imersos na síndrome de vira-lata — em que muitos brasileiros valorizam mais o que vem de fora do que aquilo que nasce aqui —, a artista colombiana escancara, para dois milhões de pessoas, que o que temos de melhor já é nosso e está mais perto do que imaginamos.

Com o público completamente entregue ao ritmo latino de suas músicas e às surpresas dos convidados, o momento que mais chamou atenção foi quando Maria Bethânia soltou a voz ao lado de Shakira. Até então, Shakira dominava o palco, levando o público ao delírio com seu português quase nativo, seus hits atemporais e sua presença magnética. Mas, no instante em que Bethânia pisa no palco — vestida de branco, com os cabelos ao vento —, a praia de Copacabana parece encolher.

Dois milhões de pessoas se tornam pequenas diante do espaço que Bethânia preenche. Ao lado de seu fiel escudeiro, Jorge Helder — que a acompanha há anos —, ela sobe ao palco sem se intimidar com a imensidão do público, que a recebe em ovação. E quem diria que, um dia, Shakira cantaria Gonzaguinha, na praia de Copacabana, ao lado de Maria Bethânia? A notícia já seria histórica — mas o momento foi ainda maior.

Quando começamos a ouvir a voz de Shakira nos primeiros versos, com o cuidado de quem faz questão de não errar uma palavra, a música — já carregada de significado — é recebida com atenção e curiosidade. No breve intervalo entre um verso e outro, Shakira passa a deixa para Bethânia. E, nesse instante, sua voz ecoa. A praia silencia por um milésimo de segundo, tentando assimilar aquela potência — e, logo em seguida, explode em ovação.

Sua voz atravessa tudo. A areia deixa de ser chão e se torna organismo vivo, pulsante. Alcança as camadas mais profundas, toca até os mais incrédulos. Seu timbre, único e preservado pelo tempo, atinge a todos como uma onda. Ao redor, todos parecem submersos, atônitos — em completo estado de Bethânia. O impacto no rosto das pessoas diante da sua grandeza é inesquecível. Foi uma catarse. Como respirar ar fresco depois de quase se afogar.

E isso prova que não importa o tamanho do artista internacional em terras brasileiras: quando Bethânia canta, é como se a própria terra tremesse. Como se uma fenda se abrisse no espaço-tempo. É a vida se impondo além de qualquer racionalidade — a natureza em seu estado mais puro de glória, caos, divindade e autenticidade. Uma sensação que vem em rompantes.

Não existe ninguém como Bethânia. Não existe nenhuma voz como a dela. E ninguém sai ileso da experiência de vê-la ao vivo — nem mesmo aqueles que questionaram a escolha dos convidados. Nem mesmo Shakira. Em alguns momentos, era possível perceber que ela também estava ali para assistir Bethânia cantar. E, entre sorrisos e ventania, a dupla mais improvável se concretiza em um encontro histórico.

Shakira fez história ao convidar tantos artistas para seu show e, com isso, abraça algo que nós, brasileiros, muitas vezes negligenciamos: a grandeza da nossa própria arte. Mas não foi apenas a emoção provocada pela voz de Bethânia que motivou esse convite. À primeira vista, pode até parecer isso. Mas, se olharmos com mais atenção, encontramos semelhanças entre essas duas mulheres — tão distantes e, ao mesmo tempo, tão próximas. Não apenas pela latinidade, mas pelo desejo de um mundo melhor, de um lugar mais justo para existir, ainda que cada uma lute em realidades distintas.

Nem nos sonhos mais ousados imaginaríamos algo assim. E, no fim, essa experiência nos deixa uma certeza: o Brasil é grande demais — só não percebe quem não quer. Nossa arte ultrapassa fronteiras, e nossos artistas têm uma importância gigantesca. E não adianta negar: ninguém passa ileso por Maria Bethânia. Ninguém sai ileso da arte brasileira. A escolha da música diz muito sobre todos nós. Quando Gonzaguinha traz essa reflexão íntima — individual, mas coletiva ao mesmo tempo —, ele atravessa pessoas de maneiras diferentes. Porque cada um conhece a dor e a delícia de ser quem é.

Quando a letra ganha a voz de Bethânia, ela passa a existir por conta própria. Torna-se uma arte à parte, ecoando no tempo e deixando uma mensagem sobre a beleza de viver — apesar de tudo. Celebrando a fé, a alegria e, acima de tudo, a esperança. O desejo de que o amanhã seja diferente e melhor. Não à toa, ela quase sempre encerra seus shows com essa canção. A mensagem é clara.

E Shakira deu a chance a muitos brasileiros, que nunca haviam vivido isso, de serem atravessados por Bethânia — e de entenderem a força da natureza que emerge quando ela canta. E somente uma brasileira seria capaz de cantar esses versos da forma mais viva e essencial — conectando-nos ao que há de mais próximo do divino e nos dando a certeza, através de sua voz, de que a vida vale a pena.

E somente um brasileiro seria capaz de escrever: “eu sei que a vida deveria ser bem melhor e será — mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita.

POR – LUA LIMA | Portal UaiBethânia